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Mo Braga thinking aloud

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A Sina de Votar no Menos Pior

Posted by mobragauk on August 26, 2018
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“Par ou ímpar?” e uma decisão aleatória é tomada entre duas opiniões divergentes.

“Quem pegar o barbante mais curto perde” e uma decisão, também aleatória, é tomada sobre quem, de um grupo, será o escolhido, em geral para uma tarefa que nenhum deles quer executar.

Numa democracia, para se decidir um governo, temos um problema de escolha também; não aleatória, mas determinística, nesse caso. O universo de pleiteantes é maior, e o universo dos consultados é muito maior ainda.

Introduz-se a prática social do Voto. Candidatos e eleitores se registram com uma autoridade eleitoral que avalia elegibilidades e direitos. Dá-se um prazo para os candidatos propagarem suas pretensões e aos eleitores avaliarem suas opções, e procede-se a uma votação. No Brasil, a fim de se garantir que o candidato vencedor o é com votos da maioria absoluta dos eleitores, os dois candidatos mais votados num primeiro turno disputam uma finalíssima num segundo turno. Cada eleitor tem dois tokens: um para dar ao candidato de sua preferência entre todos os candidatos na primeira votação; e um outro para dar a um dos dois finalistas, numa potencial segunda disputa.

Os eleitores muitas vezes se vêem considerando votar em candidatos menos piores, sob o receio de ficarem sem alternativa a não ser votar em quem rejeitam. Esse é o voto útil ou voto defensivo.

Neste artigo, pretendo enumerar algumas reflexões sobre esse processo e apresentar uma crítica ao voto útil, tendo com pano de fundo o eleitor brasileiro nas eleições de 2018.

1. Os candidatos competem, não os eleitores.

A polarização política da sociedade levada a cabo nos últimos anos juntada à alta taxa de adesão dos indivíduos aos veículos de mídia social trouxe como a mais séria das consequências a futebolização da sociedade brasileira.  Os aspectos mais marcantes são:

  • tornou transparente a preferência eleitoral de cada cidadão e
  • socializou-se a identidade dos candidatos.

Como no futebol, onde todo mundo sabe quem são os atleticanos e os cruzeirenses, na política hoje em dia todos sabemos quem são os de direita e os de esquerda. A disputa passou a ser não entre os candidatos, mas entre os grupos. Quem ganha, ridiculariza quem perde; quem perde, não poupa esforços para deslegitimizar o vencedor.

Há uma extensão da identidade dos candidatos para os eleitores do mesmo. O eleitor do candidato X se sente pessoalmente ofendido quando aquele candidato é criticado. E aí, esse povo que adota a obrigação de “se” defender, passa a depender de seu candidato prover os argumentos e os fatos políticos que dêem esteio àquela defesa. Inverteu-se o sentido de quem-precisa-de-quem.

É necessário afirmar que quem está a disputar são os candidatos. Nós eleitores somos o Brasil e, nesse momento, quem precisa de nosso voto são eles. A nós compete ofertá-lo a quem vai melhorar o Brasil.

2. Vai haver segundo turno

O fenômeno apontado no ponto anterior traz como consequência a falta de definição clara da preferência da maioria. As opções ora referendadas pela autoridade eleitoral estão posicionadas claramente ou de um lado ou de outro do espectro político. Dentro de cada lado, uns poucos candidatos dividem a preferência de mais ou menos a metade do eleitorado. Não existe preferência clara e absoluta.  E não existe mobilidade de voto entre os extremos do espectro. Ciro tira voto do Haddad ou Marina, nunca do Bolsonaro ou Alkmin ou Meirelles. A não ser que haja uma improvável aliança, com retirada de candidaturas alinhadas, o segundo turno pode ser visto como uma certeza. Podemos trabalhar com esse fato.

3. A defesa prematura pesa contra

Tenho ouvido amigos dizerem: “Apesar de achá-lo o melhor, não voto no fulano porque ele não tem chance de ganhar.” É a constatação do meu ponto número um: o torcedor quer ganhar, não importa com que time! Não seria isso pensar pequeno?

Ainda que concedamos que esse ganhar possa ser um prazer para certos indivíduos, um alívio sazonal para as amarguras do dia-a-dia, não posso me furtar de alertar que não há necessidade de se votar em ninguém que não seja o melhor entre os candidatos e a melhor entre as propostas ainda no primeiro turno.

O voto no primeiro turno é o voto puro, o voto idealista, o voto no futuro, na esperança de dias melhores, na possibilidade de realizar o sonho de viver num país que funciona, que é mais justo, que gera cidadãos felizes, prósperos, seguros e prontos para contribuir para o progresso do planeta.

O chamado voto defensivo no primeiro turno implica em eternizar a sina de ter que escolher o Menos Pior.

Estabeleça os seus critérios, observe os candidatos, familiarize-se com suas propostas, estude os seus passados e vote no melhor. Não é hora ainda de se levar em conta suas crenças sobre qual será o voto dos outros. E pesquisa eleitoral é nada mais do que isso: crença.

Tranquilize-se com a certeza de que o seu candidato é o melhor, passe ou não para o segundo turno. Reserve seu voto defensivo para esse caso.

 

 

 

 

 

 

Superball and the World Cup History

Posted by mobragauk on June 14, 2017
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I’ve just autographed a piece of history: the ball with which the final of the 1950 World Cup was played.

What? How come?

First, for the records, the signature took place at about 9pm on June 11th 2017, at the Lion’s Pride, the super soccer-pub at Church Street, Orlando, FL, USA.  Thank you to Gustavo Fonseca, the Lion’s Pride owner and to Ronaldo Camargo, my old friend from teen-ages ago, who knew about my family’s involvement with Superball.

Superball’s History

Long before I was born in 1955, there was this Brazilian company manufacturing and selling sporting goods, called Superball (Cia. Brasileira de Equipamentos Esportivos S.A.). It was originally a carioca-fluminense small network of shops and factories located in Rio de Janeiro (at Avenida Marechal Floriano), Petropolis (at Rua General Osorio), and Niteroi (at Rua Jose Clemente). Still before my birth in 1955, a spun-off of the commercial and industrial facilities was founded in Belo Horizonte, Minas Gerais state, my birth place. The shop was called Superball Minas Gerais S.A. (located at Rua da Bahia) and the factory Fabrica de Equipamentos Esportivos de Minas Gerais S.A. (located at Rua Pouso Alegre, at the Horto borough, less than a kilometer from the Independencia Arena).  My father, Oswaldo Braga (photo), became a director of the Mineiro part of the business, in association with Dr. Edgar Leite de Castro and Joao Evangelista.

With the mission to implement the Horto balls factory of Superball, they brough over all the way from Buenos Aires, Argentina, one of the most skilled ball technicians in the world by then, Senor Luiz Pinton. Sr Pinton was the brain and hands behind the “invisible mouth” (boca invisivel, in Portuguese), the technology that enabled a seamless finishing of the ball sewing process.

Before that, the sport balls had an external string to finish closing the leather casket that protected the air bladder.  One would inflated the bladder, tied the laces and used a special tool that looked like a curved screwdriver with a hole at the end in order to conceal the lace’s ends.  The end result was not very much spherical and the laces made the distribution of the weight uneven.  The ball span in the air in a weird way and there was nothing predictable about its trajectory.  Under wet conditions, it accumulated water and sometimes we had shots that looked like a sprinkler showering water all around. Many players left the ground with bleeding foreheads, following headings on the ball at the exact and unfortunate point where the laces were located.

But, back to ball manufacturing, think about it.  A ball was manually sewed nearly completely inside out.  However, at the very end, when just one segment of sewing is outstanding, the ball is turned inside out and the last inner bit must be sewed from the outside.  A clever choreography of needles takes place to make it possible.  Superball was the patent holder of this technology.

The genius behind the new ball, Sr Pinton, lived in Belo Horizonte until his passing away in the late 60s. After his death, the factory was managed by Leonidas Silva. I started working as a Manager Assistant, taking advantage of the fact that I lived a block away from the factory. I became the manager in 1974 and remained so until its closure in 1976.

A new company was founded in 1976 to produce sporting nets, initially located at the same plant at Rua Pouso Alegre: its name, Filo Industria e Comercio de Artigos Esportivos Ltda. The shop moved later on to Rua Tupis and stayed open for business, under my family’s control, until 1985. But this is another story, for another post.

The Ball of the 1950 World Cup in Brazil

We produced the Superball Double-T for many years before the equally famous G18 and G32 models superceded it. And I have always believed that the balls of the 1950 World Cup had been manufactured in the Horto factory by Sr. Pinton.  But now, after a quick research, I found that, it is pretty much likely that they have been made by our sister factory in Niteroi.

The Double-T was so called because of the appearance of its leather cuts. Each ball was made up by 12 of them. Each cut had the shape of a elongated C. Two cuts were sewed back-to-back together to form a sort of elongated sideways H, or more commonly described, a foot-against-foot double-T. Six double-Ts were then sewed in a cubic arrangement to produce the expected sphere.  This design was an enormous improvement and allowed for more spherically shaped balls to be produced.  The Double-T design combined with the invisible mouth feature transformed the Superball Double-T in a major success, being adopted by most football leagues is South America and around the world.

The Superball Double-T was used in all matches of the 1950 World Cup, including the final.

The Biggest “Zebra” in BH

I mentioned earlier that the factory was located at Rua Pouso Alegre, near the Independencia Stadium.  That stadium was the largest in Belo Horizonte in 1950. It was the home ground of the Sete de Setembro Futebol Clube, the team that my father supported.  As Belo Horizonte had been chosen to host some of the 1950 World Cup games, the Independencia Stadium happened to be the stage of one of the most incredible matches of World Cup history: England vs USA.

England was a footballing world power. They invented the game, for sod’s sake! USA was a bunch of amateurs, most of them “with proper jobs”, rather than full time professional players.

The match was mostly one sided. England attacking and USA defending. The only chance USA had to go on the England side… they scored a goal!  Final score: 1-0 to the USA.

I have many friends in England that, when I mention where I come from, Belo Horizonte, they know of it because of this match.

Notice in the picture the exact moment when the USA scored. Notice the banner on the background. It reads “SUPERBALL – A bola oficial do campeonato do mundo” (the official ball of the world championship). My father was most certainly he who hanged it there with his own hands. He he he.

The Maracanazo

You know that a match is important when it receives a name. It is exactly the case of the World Cup final between Brazil and Uruguay, which took place in 16 July 1950, at the Maracana Stadium, Rio de Janeiro City. It hosted the biggest crowd ever for a football match: 200,000 people, the great majority by far Brazilians, who went to see their national team be World Champions for the first time in history.  The hosting team was good and had impressed the world pundits with many comprehensive victories leading to that final. The confidence of the Brazilian public could not be higher up and victory was written in large letters in the horizon.

And more so, when Brazil scored first at the beginning of the second half.

It was not to be though.

Uruguay scored a tie and, with 11 minutes left, Alcides Ghiggia netted the Superball Double-T to the back of the net for the despair of the huge crowd of astonished Brazilians.

This was considered the biggest disaster in Brazil history for many years – that is, until the 7-1 defeat for Germany in 2014’s semifinal, I should say.  The issue is somewhat controversial, surely.

So, What Happened to That Very Football?

My research found some interesting data.  Somebody else in Uruguay wrote a full book about the fate of the ball with which the Maracanazo was played. Apparently, it was taken to Uruguay by the goalkeeper Roque Maspoli, and given as a present to the Church of Saint Como, the Saint of the Impossible Causes.

From then on, the accounts diverge. There is a version that tells us that the priests lent the ball to local boys to play and they never returned it. Other account brings about the fact that many rich people used to donate valuable goods to the church, in exchange or in gratitude for “impossible” graces received. In consequence, the church attracted villains and robbers who, at some stage, stole the ball – together with the kit used by the midfielder Julio Perez in the Maracanazo. Nobody would know where the ball was until 32 years later, when it appeared in Brazil, in an auction in Rio Grande do Sul state.  Reporters from Brazil and Uruguay investigated the claim that the ball was the real thing, but concluded that, in spite of been autographed by all players of the Uruguayan squad, that ball has never been played with, either in Maracana or anywhere else.

Controversially though, that ball had been placed on sale in London by Bonhams and, as a proof of its authenticity, Ghiggia declared on video that the ball was genuine.  A buyer, identified simply as Henrique, paid the asked price of $1,800 and took ownership of the ball.  The whole account is discussed in this blog.

Nevertheless, given my involvement with Superball, Brazil and the ball manufacturing industry, Gustavo Fonseca graciously and magnanimously invited me to autograph the ball, during an extraordinarily pleasant evening at his restaurant in Florida. The ball had no signatures. I thought the honour tremendously undeserving, but it filled my heart with pride. I did so in memory of senor Luis Pinton, Dr. Edgar Leite de Castro, and especially, my father, Oswaldo Braga.

The ball, as well as many others, from all World Cups in history, can be found in exhibition at the Lion’s Pride. If you ever go to Orlando and you love football, it’s definitely worth a visit.

 

Related:

https://en.wikipedia.org/wiki/Uruguay_v_Brazil_(1950_FIFA_World_Cup)

 

Se Não Quiser Ver, Feche os Olhos

Posted by mobragauk on October 28, 2014
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eyes shutO partidarismo editorial da imprensa é normal em todo país do mundo. Aqui em Londres, por exemplo, tem jornais nítidamente de tendência Labour; outros, Tories. O The Independent, como o nome indica, se vende como isento de orientação partidária. O The Economist sempre toma partido em disputas eleitorais, tanto aqui quanto nos EUA, ou no Brasil.

A diferença é que a orientação é manifesta apenas nos editoriais e colunas op-ed. Para mim a notícia deve mostrar os fatos, vistos como são, com depoimentos dos envolvidos, não importando em que lado do espectro político eles estejam. E não importando a quem doa, desde que os fatos sejam reportados com fidelidade. Os editoriais, obviamente, atenuam ou ressaltam aspectos que se alinham com a orientação do jornal. Da mesma forma como eu e você o fazemos nas redes sociais.

Os leitores têm a opção de comprarem e lerem as publicações com as quais se sentem mais à vontade. Este é outro aspecto da liberdade de imprensa.

O Complexo de Vira-Lata

Posted by mobragauk on October 27, 2014
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david+goliath

A gente adora ver o improvável acontecer. Davi vai lutar contra Golias, prá quem vc torce? Davi, é claro. Se o Golias vence, nada de extraordinário terá acontecido. Deu a lógica. Nada de excitante. Mas se Davi vencer – uau! – teremos algo do que conversar por muito tempo. Psicólogos têm outras explicações para isso.

Como disse Nelson Rodrigues, nós brasileiros temos um complexo de vira-lata, surgido na Copa do Mundo de 1950, quando perdemos a final para o Uruguai. A gente se sente inferior quando comparado com o resto do mundo. Isso é por que não valorizamos a excelência e torcemos sempre pelo fraco.

Os debates televisivos na TV brasileira conduzintes à eleição presidencial do último fim de semana ajudaram a associar a incumbente com Davi e o desafiante com Golias. A diferença na capacidade de se expressar fluente e coerentemente entre os dois candidatos foi tão gritante que a audiência se sentiu embaraçada e com pena da parte que deixou a desejar. A pequena maioria do povo brasileiro, caridoso e compadecido, votou nela.

Isso vai nos custar caro e reforçar o complexo de vira-lata por anos por vir.

Deu Zebra

Posted by mobragauk on October 27, 2014
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zebraO folclore brasileiro é rico em ditos, figuras de linguagem e metáforas. Uma delas se refere ao jogo do bicho, uma espécie de loteria informal, que apesar de ilegal, é muito popular. São 25 os bichos do jogo. Você aposta num deles uma quantia em reais, e caso ele seja sorteado, você é premiado e multiplica o seu “investimento”. Existe um mito de que não se deve apostar no último (a zebra), pois ele é improvável(!). O folclore exagera o mito e estabelece que, se algo acontece que, pela lógica, não poderia ter ocorrido, é por que “deu zebra”. No futebol, por exemplo, na Copa do Mundo de 1950 no Estádio Independência em Belo Horizonte, USA bate na Inglaterra: zebra, é claro.

Esse fim de semana, deu zebra na política brasileira. Na disputa eleitoral entre um candidato competente e preparado e outro disfuncional e despreparado, ganhou o segundo. Zebraça.

Em Vão

Posted by mobragauk on July 9, 2014
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FeCopa

Velas foram acesas,
Santos foram vestidos,
Terços foram percorridos por dedos devotos,
Frangos foram mortos,
Homens-horas de prece foram consumidas,
Galões de chás foram ingeridos,
Oferendas foram apresentadas em altares.

Mas o proverbial deus não ouviu.
Munido de uma equipe trajada de preto e vermelho,
À cada tonelada de implorações e rezas
Ele respondeu com gols
Contra a meta verde-amarela.
Um atrás do outro.
Quanto mais rezas, mais gols.

De duas, pelo menos uma segue:
É inútil orar
Ou a humilhação é graças a deus.

 

É Ou Não É A Inteligência Um Pre-requisito Para Se Debater Deus?

Posted by mobragauk on April 1, 2014
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Inteligência é definida em termos da capacidade de lógica, pensamento abstrato, compreensão, aprendizado, conhecimento emocional, memória, planejamento, resolução de problemas e – quero destacar – comunicação. Em Zoologia, cientistas usam evidências de comunicação para se avaliar o grau de inteligência que uma espécie desenvolveu ao longo de seu processo evolutivo. Por exemplo, golfinhos, baleias e chipanzés são capazes de interagir entre si de forma relativamente sofisticada, indicando que tais espécies são particularmente inteligentes.

Um debate é um jogo intelectual onde, diante de uma proposição ou tema, dois indivíduos apresentam argumentos. Um contra, outro a favor. Em geral debates são públicos e, ao final, a platéia ou um painel de jurados decide qual dos dois venceu o debate. Um debate é uma degladiação mental; portanto, um sofisticado processo comunicativo e competitivo de apresentação lógica de idéias.

Baseados nas definições acima, chegamos à lógica resposta ao título deste artigo. Sim, inteligência é necessária para se debater qualquer coisa. Em especial, precisa-se de muita inteligência, se o objeto do debate é um dos mais polêmicos e controversos que a mente humana jamais engendrou: Deus.

Um aspecto peculiar diferencia o debate sobre Deus do sobre qualquer outro assunto: o envolvimento pessoal dos que advogam em defesa da posição da divindade. Por razões que tentarei desencavar adiante, consideram-se críticas ao conceito de Deus e à prática religiosa ofensas pessoais àqueles que acreditam nele e obedecem tal prática. Não deveria ser o caso, pois o que se discute são as idéias, não os debatedores.

Debater é gostoso. É excitante. Principalmente quando se experimenta as idéias aflorando em resposta à pressão aposta pelo adversário. E é uma atividade saudável para o espírito. Ao longo de minha vida experimentei vários desses debates. Entretanto, com frequência saí deles com uma sensação ruim de quem pareceu estar agredindo. Às vezes, a pessoas queridas.

Por que isso?

Deus, no sentido coloquial – ou seja, de que é um ser eterno, invisível, criador de tudo, com infinitos atributos e interessado pessoalmente por cada um de nós – é uma idéia que é replicada nos filhos por pais crentes e se eviscera na psicologia dos humanos de geração para geração. A intenção dos pais é a melhor possível. Esses filhos, indefesos, acolhem a idéia, cultivam-na com carinho e dedicação ao longo de suas vidas, e, por sua vez, passam para os filhos. Este processo – não a veracidade ou plausibilidade da idéia – é o que a faz tão persistente e duradoura.

O ambiente social realimenta o processo. O Deus é representado pela religião do local onde o sujeito reside. E esta propicia uma comunidade de iguais, um ambiente de auto-reforço, hábitos, regras e preceitos de conduta comuns. O enraizamento da idéia é martelado através de cerimônias e rituais que, por um lado marcam os momentos mais significativos da vida humana: nascimento, maturidade, casamento, formatura, morte. Por outro lado, os preceitos religiosos são igualmente invocados nos momentos mais mundanos do dia-a-dia do sujeito: despertar, se alimentar, cruzar um altar, entrar em campo (jogadores de futebol se benzem), fazer sexo (certas religiões têm regras sobre com quem e como), ir dormir, e – pasmem – até usar o toilete (certas religiões determinam com que mão deve-se limpar).

“Não se pensa Deus. Deus se sente.” – dizem os religiosos. E o sentir, qualquer que seja ele, é falaciosamente confundido com o próprio Deus. “Se sentes, é porque Deus está contigo”. Como se o acreditar em Deus fosse pré-requisito para se amar, se comover, se sentir grato, ou ser bom. Não é.

Essa confusão entre o Deus e o sentir é o que gera o problema do debate: considera-se que atacar a idéia de Deus significa atacar o que o indivíduo é e o que ele, em sua mais recôndita intimidade, sente.

Colocar em dúvida a idéia de Deus tem implicações duras para a vida da pessoa que foi crente. Significa considerar mudanças em sua vida que afetarão suas relações sociais, seu amor-prório e irão requerer muita coragem. A oposição é grande em todas as áreas de atuação: sociedade, amigos, família, vida interna consigo mesmo. Não se abandona a fé sem se ter uma convicção que supera tais dificuldades.

Para um crente, debater Deus e a religião é, portanto, expor a fragilidade das razões pelas quais se tem tais convicções diante de um interlocutor hostil e extremamente convicto. E nesse aspecto, este último sempre tem a vantagem de poder pensar livremente e explorar com amplidão todas as possibilidades. O crente tem limites. Não de inteligência ou conhecimentos ou experiência. Há aspectos que não podem ser pensados por ele, pois refletem-se em pecados e blasfêmias. Território proibido. O livre pensador, não. Este tem acesso a tudo. E apresenta esse tudo no debate, causando ansiedade, frustração e, ao fim, ira ao crente que se engaja em debates sobre Deus.

Em síntese, para se debater Deus necessita-se inteligência sim. Para se tirar proveito pleno de debates, seja como debatente, seja como audiência, há que se usar da inteligência para distinguir-se das pessoas as idéias. Deixem-se de lado os melindres pessoais e todos saem ganhando.

Deus Não É Elegante Conceito Filosófico

Posted by mobragauk on March 19, 2014
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Para mim, ao contrário de elegante, o conceito vernacular de Deus é tosco. Existe para explicar tudo o que o intelecto humano ainda não conseguiu abraçar. Se existe um lapso no conhecimento, Deus é invocado para preencher o buraco. Nesse aspecto, o conceito é destinado à gradual inutilidade, à medida que a Ciência elucida os mistérios da natureza.

Semelhante ao conceito de Deus, vejo a cosmologia de Anaximandro, um dos filósofos pre-socráticos que, diante do grande dilema que dominava os atomistas no século VI A.C. sobre a substância da qual todas as coisas são feitas, não teve dúvidas: a substância primordial é o “apeiron (ἄπειρον), uma substância qualitativamente indefinida e quantitativamente infinita”.  Ele inventou a palavra!

Da mesma forma serve o conceito popular de Deus. Quem criou tudo? Deus.  Quem causa os terremotos? Deus.  Quem faz o meu time ganhar ou perder? Deus.  E por aí vai…  Como dizia Hitchens, “aquilo que explica tudo, na verdade não explica nada”.

Peguem-se os atributos de Deus: um ser eterno, onipotente, onisciente, onipresente, infinitamente bom e diretamente interessado com as questões pessoais de cada ser humano. Depara-se com uma mistura de características conflitantes que, quando antepostas a situações reais do dia a dia da sociedade humana, conduzem ao repúdio do conceito. A não ser que, ao tentar fazer isto, o pensador se vê diante de inculcações e preconceitos impressos em sua psique desde criança, que imobilizam o intelecto a prosseguir por essa linha.

Vejamos um exemplo: uma criança inocente é violentada e morta. Um ser com infinita sabedoria, infinita bondade e infinito poder não poderia consentir nisso.  No entanto, vemos isso acontecer toda hora nos noticiários. Sinal de que Deus não tem, na melhor das hipóteses, um dos atributos mencionados: ou ele não ficou sabendo, ou ele não estava lá, ou ele não teve o poder de evitar, ou ele simplesmente não se lixou pelo acontecido. Ou ele, com tal descrição, não existe.

A idéia de um criador de todo o universo que se interessa pessoalmente por cada um dos míseros seres humanos que vivem num mísero planetinha num canto da vastíssima extensão do universo é ridícula. Certamente foi engendrada por pessoas simples, cujo conhecimento e sabedoria não iam muito além das cercanias de seu vilarejo, há milênios atrás. A virulência do conceito, entretanto é impressionante, e isso eu sou obrigado a conceder, pois até hoje, tal absurdo é aceito incontestavelmente por pessoas de prestígio em nossa sociedade.

Elegância é conforto, é simplicidade, é adequação, é prazer estético, é satisfação emocional e intelectual. É a faca amolada, que faz o corte sem exigir esforço do operador. É a luva que veste perfeitamente. É o nada sobrando nem faltando. O conceito Deus veste tudo, mas nos deixa com o traseiro de fora quando é servido com mistérios que não fazem sentido. É a geléia irracional que permeia o mundo e atola o progresso da civilização.

Pode ser muita coisa; elegante, não.

How Many Medals?

Posted by mobragauk on August 13, 2012
Posted in: Uncategorized. Tagged: 2012 olympic games, london 2012 olympic games, sports. Leave a comment

ImageAfter all, how many medals has my country won in the Olympics?  According to the Olympic Games charter, an Olympic medal is awarded to successful competitors at one of the Olympic Games. There are three classes of medal: gold, awarded to the winner; silver, awarded to the runner-up; and bronze, awarded to the third-place competitor. So, a medal is awarded to a competitor. Mmmm… My country is known for its strength in team sports where groups work together to win matches.  Some other countries are good at sports where a single athlete does the competing and the winning.

A victorious archer wins one medal.  Why not a football player?  18 football players struggle together to win one medal, which makes each player responsible for just about 5.5% of a medal.  That’s wrong.  All athletes had to dedicate themselves and sacrifice a big deal of their lives in order to achieve olympian glory.

Well let’s make justice.  This is the correct count of the medals awarded during the fabulous London 2012 Olympic Games.  What counts here is the number of medal winning athletes, not sport modalities.

Country Gold Silver Bronze All medals Rank Official rank Difference
USA   147 63 46 256 1 1 0
CHN   56 40 28 124 2 2 0
RUS   50 38 52 140 3 4 +1
GBR   48 30 48 126 4 3 -1
GER   45 27 22 94 5 6 +1
FRA   30 30 18 78 6 7 +1
NED   21 29 19 69 7 13 +6
AUS   18 37 59 114 8 10 +2
KOR   18 13 30 61 9 5 -4
MEX   18 5 3 26 10 39 +29
ITA   16 22 30 68 11 8 -3
CRO   15 4 16 35 12 26 +14
NOR   15 1 1 17 13 35 +22
BRA   14 34 11 59 14 22 +8
HUN   12 8 5 25 15 9 -6
UKR   9 5 12 26 16 14 -2
JAM   8 9 8 25 17 18 +1
NZL   8 4 15 27 18 16 -2
JPN   7 44 33 84 19 11 -8
RSA   6 2 1 9 20 24 +4
ESP   5 34 25 64 21 21 0
CUB   5 3 6 14 22 15 -7
BLR   4 12 8 24 23 23 0
IRI   4 5 3 12 24 17 -7
CZE   4 4 6 14 25 19 -6
PRK   4 0 2 6 26 20 -6
BAH   4 0 0 4 27 50 +23
DEN   3 5 8 16 28 29 +1
ETH   3 1 3 7 29 25 -4
SWE   2 18 3 23 30 37 +7
ROU   2 8 6 16 31 27 -4
KEN   2 4 5 11 32 28 -4
KAZ   2 3 6 12 33 12 -21
POL   2 2 8 12 34 30 -4
AZE   2 2 6 10 35 30 -5
TUR   2 2 1 5 36 32 -4
SUI   2 2 0 4 37 33 -4
LTU   2 1 2 5 38 34 -4
CAN   1 21 35 57 39 36 -3
ARG   1 16 3 20 40 42 +2
COL   1 3 4 8 41 38 -3
GEO   1 3 3 7 42 39 -3
IRL   1 1 3 5 43 41 -2
SLO   1 1 3 5 43 42 -1
SRB   1 1 14 16 45 42 -3
DOM   1 1 0 2 46 46 0
TUN   1 1 1 3 47 45 -2
TRI   1 0 9 10 48 47 -1
UZB   1 0 3 4 49 47 -2
LAT   1 0 2 3 50 49 -1
ALG   1 0 0 1 51 50 -1
GRN   1 0 0 1 51 50 -1
UGA   1 0 0 1 51 50 -1
VEN   1 0 0 1 51 50 -1
MNE   0 14 0 14 55 69 +14
IND   0 2 4 6 56 55 -1
EGY   0 2 0 2 57 58 +1
MGL   0 2 3 5 58 56 -2
THA   0 2 1 3 59 57 -2
POR   0 2 0 2 60 69 +9
BUL   0 1 1 2 61 63 +2
EST   0 1 1 2 61 63 +2
INA   0 1 1 2 61 63 +2
MAS   0 1 1 2 61 63 +2
PUR   0 1 1 2 61 63 +2
TPE   0 1 1 2 61 63 +2
FIN   0 1 4 5 67 60 -11
SVK   0 1 4 5 67 59 -12
ARM   0 1 2 3 69 60 -13
BEL   0 1 2 3 69 60 -13
BOT   0 1 0 1 71 69 +2
CYP   0 1 0 1 71 69 +2
GAB   0 1 0 1 71 69 +2
GUA   0 1 0 1 71 69 +2
KSA   0 0 4 4 75 79 +4
SIN   0 0 4 4 75 75 0
GRE   0 0 3 3 77 75 -2
MDA   0 0 2 2 78 75 -3
QAT   0 0 2 2 78 75 -3
AFG   0 0 1 1 80 79 -1
HKG   0 0 1 1 80 79 -1
KUW   0 0 1 1 80 79 -1
MAR   0 0 1 1 80 79 -1
TJK   0 0 1 1 80 79 -1
BRN   0 0 1 1 80 79 -1

The way one counts the medals makes a significant difference. Look at Mexico, for instance. Positioned at 39th place in the official rank, when we count the number of people who is actually bringing gold medals to the aztec territory, Mexico jumps 29 places and ends up at the terrific 10th position in the rank, justly in front of Brazil, which they trashed at the football pitch in the final match.  Similar things happen with Norway and the Bahamas.

On the other hand, Kazakhstan drops 23 places from 12th to 33rd.  USA and China stay safely in the lead, but Team GB drops one position behind the Russian Federation.

GideonAtFifty – Uma Festa Inesquecível

Posted by mobragauk on September 13, 2011
Posted in: Uncategorized. Leave a comment

Para todos os efeitos práticos, vamos falar de uma Festa. Mas, como uma Forma socrática, o conceito não encontra na realidade um exemplo ilustrativo.Talvez tenhamos que redefinir a coisa e incluir nela outro conceito, o de Extravagância, para chegar perto do que aqui estamos a nos referir.

Bom, para começar, a Festa do aniversário do Gideon acontece em Stockcross, Newbury, mais ou menos a uns 100 km ao oeste de Londres, no Reino Unido. Um spa hotel de 49 quartos foi exclusivamente alugado para os convidados. Tudo cortesia do aniversariante que completa suas 50 primaveras.

À chegada, ontem, fomos saudados pelo anfitrião, esposa e a mestra-de-cerimônias, devidamente trajada de domadora de leões. De sua cartola, sorteamos o quarto: 119, um quarto com quatro ambientes – sala de estar, quarto de dormir, banheiro e closet – padrão cinco estrelas.

Após um curto intervalo para desfazer as malas, tomar um banho e nos vestirmos, seguimos para um dos bares do restaurante do hotel, onde a primeira atividade estava para se iniciar às 8 horas. Somos quarenta hóspedes. Champagne foi servida, acompanhada de conversa amigável.

A primeira surpresa aconteceu quando fomos orientados para deixar o quentinho do restaurante para o frio de 4 graus da escadaria do jardim adjascente. Convidados à posts, heis que diante de nós, inicia-se um espetáculo pirotécnico de cair o queixo. Dura não menos que dez minutos, durante os quais o frio foi esquecido completamente.

De volta ao quentinho do bar, onde as lareiras acesas davam ao ambiente um delicioso e aconchegante ar, fomos conduzidos ao restaurante onde música ao vivo e a segunda surpresa nos esperava.

As mulheres iriam para uma área e os homens para outra, protegida por cortinas. Algumas reclamações são ouvidas, mas levadas na brincadeira. Tomei um assento próximo a Trishul, um amigo de longa data, me apresentei aos vizinhos e observei a organização dos elementos de decoração. Em cima da mesa, soldadinhos de chumbo, cachimbos, algumas cartolas, bigodes postiços. O cardápio era impressionante: entrada de fois gras, fillet mignon de prato principal e algo delicioso de sobremesa. Bebida de primeira era servida sem parar, numa mostra de requinte e sofisticação. A conversa era contínua e agradável, mas o clamor que vinha do lado das mulheres era muito mais prominente.

Estava no meio do meu fillet, quando, de repente, surgem Vania e Sabhita (a esposa do Trishul) e, sem perguntar, agarram nossos pratos e saem com eles. Imeditamente, um garço aparece e pergunta pelo meu prato. Sumiu. Ele cortesmente me diz para não me preocupar e, um novo prato de fillet mignon, quentinho é colocado diante de mim.

Foi quando constatei o que estava acontecendo.  As mulheres, na parte de baixo do restaurante estavam sendo tratadas diferentemente. Prá começar, as suas mesas eram de madeira nua, sem toalha, sem guardanapos. Os garçons chegaram com pratos de arroz e galinha, colocaram numa mesa à parte e anunciaram: – “Garotas, a comida está servida. Cada uma pegue a sua.” Elas tinha que se levantar e ir pegar o seu prato. Inicialmente elas acharam meio esquisito, mas fizeram sua filinha organizadinha e cada uma se serviu.

Quando o vinho (de tampa de rosca!) começou a acabar para elas e uma delas pediu mais vinho, foi respondida, em voz alta pelo garçon: – “Se quizer mais vinho, tem que ir pedir pro Gideon.”  Foi aí então que elas entenderam o que estava acontecendo e a diferença do tratamento que elas estavam tendo, comparado com o que os homens recebiam. Revolta total.  A maioria das mulheres levou na brincadeira, como a Vania e a Sabhita. Se levantaram e invadiram o clube dos cavalheiros para pleitear seus “direitos”. Algumas das esposas entretanto, não ficaram nada satisfeitas com a brincadeira. Quem conhece o Gideon, e está acostumado com suas brincadeiras politicamente incorretas de tripudiar feminismo e exaltar o império britânico, não tem como rolar de rir da criatividade da situação e da manifestação super específica de sua personalidade.

A banda tocava Charleston, com os músicos vestidos impecavelmente dos anos 20, com fraques, cartolas e gravatas-borboleta brancas. Malabaristas e mágicos entraram em ação, entretendo os convidados. Os bigodes e cartolas começaram a ser usados por todos. A dança inicou-se e ficou logo animada – agora com os sexos devidamente misturados – e durou até a madrugada.

Fim do dia um, ou seja a véspera da festa propriamente dita.

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